Covid-19: Fiocruz inicia teste clínico com medicamentos para hepatite C

Dois medicamentos usados contra a hepatite C se mostraram eficazes ao inibir a replicação do Sars-CoV-2 em estudos com células em laboratório, com a pesquisa entrando agora em sua fase 2: o teste em pacientes. Os resultados desta primeira fase do trabalho, liderado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), foram publicados (21/4) em artigo na Journal of Antimicrobial Chemotherapy, da Oxford Academic. Os resultados da fase 2 possivelmente serão conhecidos no segundo semestre deste ano.

O estudo, iniciado no ano passado, partiu de semelhanças entre o novo coronavírus e o vírus da hepatite C. Se esses dois medicamentos eram eficazes contra um, também poderiam apresentar resultados contra o outro, explica Thiago Moreno, pesquisador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e coordenador do estudo que resultou no artigo Atividade antiviral in vitro dos medicamentos anti-HCV daclatasvir e sofosbuvir contra Sars-CoV-2, o agente etiológico da Covid-19.

A pesquisa mostrou que o daclatasvir foi pelo menos sete vezes mais potente do que o sofosbuvir e que, inclusive, ajudou o segundo a ganhar potência. O sofosbuvir inibe a síntese de RNA viral por agir diretamente na enzina que ajuda no processo de multiplicação do vírus. Já o daclatasvir não só inibiu a síntese de RNA viral, como atrapalhou o processo em que o vírus multiplica seu material genético dentro da célula. “Ele facilitou que certas estruturas do RNA viral, que precisam estar bem modeladas, se dispersassem. Com isso, essa enzima que faz a multiplicação do material genético do vírus não conseguiu funcionar adequadamente”, observa Moreno.

Na fase 2, em andamento em colaboração com o grupo do HCor e a Coalizão Covid, está sendo administrada em pacientes a mesma dosagem utilizada contra a hepatite C. Mas os pesquisadores já sabem que pode ser necessária uma dose maior. Com a atual, a taxa de inibição da replicação ficou entre 90% e 50% – considerando o pico do medicamento e seu índice mais baixo, quando se aproxima o horário da dose seguinte. O ideal é chegar a inibir 99,99%.

“Será que é suficiente para combater a Covid-19? Não sei, esse ensaio clínico vai revelar”, diz Moreno. Se a dosagem regular não funcionar, outras serão propostas, mas isso pode fazer a pesquisa dar um passo atrás e voltar à fase 1 para garantir que existe segurança e tolerabilidade em doses mais altas.

O uso de um medicamento conhecido — o chamado reposicionamento de droga — traz vantagens e desvantagens ao tentar adaptá-lo a outra enfermidade. “É como se uma roda do carro estivesse caindo porque perdeu um parafuso. Você acha um outro, que não é exatamente o mesmo, e tenta usá-lo para a roda não cair, mas não tem certeza absoluta de que vai funcionar”, diz Moreno.

Praticidade e preço 

Por outro lado, entre as vantagens estão o preço e a praticidade. Os pesquisadores buscaram medicamentos na forma de comprimidos, para que sua administração fosse mais fácil, podendo ser usado em tratamento ambulatorial. Além disso, anos atrás, a empresa que o produz o daclatasvir abriu mão da patente, possibilitando a fabricação de genéricos. O tratamento com o medicamento produzido na Índia sai em torno de US$ 5 (cerca de R$ 27), observa Moreno. No momento, o daclastavir está sendo usado em pacientes hospitalizados e com alta carga viral para melhor acompanhamento dos resultados.

Em termos de comparação, o remdesevir, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o uso contra a Covid-19, é aplicado de forma intravenosa, em uso hospitalar, utiliza uma tecnologia mais cara e é propriedade de uma empresa farmacêutica, o que também pesa no seu preço.

Apesar de a publicação final ter sido agora, o estudo já foi discutido com Anvisa ao longo de todo o segundo semestre de 2020, e no começo deste ano recebeu sinal verde para começar o ensaio clínico com o HCor e o Grupo Coalizão Covid. “É provável que para o segundo semestre deste ano a gente já tenha os resultados da fase 2 e até da fase 3”, diz, referindo-se ao aumento do teste em escala, com mais pacientes.

A divulgação em 2020 do estudo em uma pré-publicação atraiu grande interesse internacional. Além dos grupos do CTDS/Fiocruz, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (Idor) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram fechadas parcerias com as Universidades de Columbia (EUA) e Liverpool (Reino Unido), que desenvolviam pesquisas complementares: a instituição britânica fez as predições das doses e a americana realizou os experimentos enzimáticos. “É um estudo que é muito completo, fornecendo várias camadas de evidências para o efeito dessas drogas”, diz Moreno.

 

Cristina Azevedo

Agência Fiocruz de Notícias

Vaccine concept
Vaccine concept

Busca ativa e campanhas reduziriam atraso na segunda dose da vacina contra a covid-19 entre idosos

Levantamento semanal de cobertura vacinal realizado por pesquisadores da USP em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que continua baixa a aplicação da segunda dose da vacina contra a covid-19 entre os idosos no Brasil, em torno de 4% na faixa entre 60 e 69 anos.  Entre as soluções apontadas pelos cientistas, a promoção de campanhas e a busca ativa (por telefone ou visita domiciliar) para completar o esquema vacinal, “garantindo, assim, a eficácia do imunizante e proteção contra a doença”, diz o médico e pesquisador Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e um dos responsáveis pelo estudo. A última nota divulgada foi dia 23 de abril (sexta-feira), com informações atualizadas de todos os estados da federação.

Scheffer lembra ainda que, passados quase três meses do início da vacinação, o País não alcançou a meta de cobertura para os grupos prioritários, que é de 90%. As vacinas são insuficientes, a entrega de doses vem sendo constantemente revisada para menos e a cada dia é definido mais um grupo prioritário, sem que a população anterior tenha sido imunizada. “O correto, enquanto a oferta de vacinas é baixa, é continuar priorizando aqueles que têm maior risco de adoecimento grave e de morte”, diz o médico.

“Os serviços de saúde e as prefeituras precisam convocar e incentivar as pessoas a voltarem aos postos de vacinação para tomar a segunda dose da vacina. Em partes, o atraso acontece porque ainda não houve o intervalo necessário entre a primeira e a segunda dose, mas, em muitos casos, as pessoas perderam a data”, diz o pesquisador. Até o momento, 81% das vacinas administradas no Brasil são as produzidas pelo Instituto Butantan, a CoronaVac, cujo intervalo entre uma dose e outra é de 28 dias. Segundo o estudo, até o momento, mais de 1,5 milhão de pessoas vacinadas com a CoronaVac ainda não haviam retornado para receber a segunda dose.

Cobertura vacinal de idosos

Em 21 de abril, das pessoas com idade entre 60 e 69 anos, 40% haviam recebido a primeira dose da vacina e apenas 4% a segunda dose; na faixa etária entre 70 e 79 anos, o porcentual de vacinados com a primeira dose foi de 85% e com a segunda, 37%; e dentre aqueles com 80 anos ou mais, 90% foram vacinados com a primeira dose e 46% com a segunda. Na população acima de 80 anos de idade, menos numerosa e convocada prioritariamente, em apenas 13 Estados a cobertura com segunda dose foi acima de 50%.

Para a população de 70 a 79 anos de idade, com exceção de Alagoas e São Paulo, nenhum outro Estado teve cobertura acima de 50% com duas doses. Para a população com idade entre 60 e 69 anos de idade, a cobertura com duas doses está em 4% no País, variando de 1% (na Bahia, Paraná e Tocantins) a 26%, no Amazonas. De 31 de março até 21 de abril, a cobertura da imunização com duas doses foi de 1% para 4% da população de 60 a 69 anos; de 3% para 37% entre quem tem de 70 a 79 anos; e de 29% para 46% entre aqueles com 80 anos ou mais. A cobertura vacinal com a primeira dose entre os idosos de 75 a 79 anos (89%) e de 70 a 74 anos (84%) avançou substancialmente ao longo da semana de 14 a 21 de abril, segundo mostra o estudo.

Nas grandes regiões (Tabela 2), para a população acima de 80 anos de idade, coberturas acima de 90% com a primeira dose foram alcançadas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Coberturas com as duas doses são ainda baixas (em torno de 40%-50%) em todas as regiões.

Para a população de 70 a 79 anos de idade, foram registradas coberturas em torno de 83% a 89% com a primeira dose em todas as regiões, enquanto as coberturas com a segunda dose vão de 24% a 42%. Para a população acima de 60 a 69 anos de idade, coberturas ainda abaixo de 50% com primeira dose ocorrem em todas as regiões, exceto na região Norte, com 62%, o que ainda é considerado baixo para a meta de 90%. A cobertura com duas doses entre quem tem de 60 a 69 anos é incipiente (menor que 12%) em todas as regiões.

Ao analisar a cobertura vacinal nos primeiros grupos prioritários definidos pelo Plano Nacional de Imunização (Tabela 3), observa-se que, com exceção do grupo de pessoas com mais de 60 anos institucionalizadas, e daqueles com mais de 80 anos de idade, a cobertura vacinal alcançada com a primeira dose é ainda aquém da desejada para os demais grupos-alvo iniciais da vacinação, considerando que metas acima de 90% deveriam ser alcançadas.

Importância da cobertura vacinal de 90%

Segundo o professor Scheffer, a monitoração da cobertura vacinal é importante para saber se as pessoas que têm maior risco de adoecimento e morte estão protegidas. A meta desejada de cobertura vacinal para os grupos prioritários é de 90%. As vacinas disponíveis para os brasileiros prometem eficácia entre 50% e 70% para prevenção das formas graves da covid-19. Levando em conta a alta transmissibilidade da doença, para que essas vacinas tenham impacto populacional, as metas almejadas de cobertura vacinal entre os grupos prioritários devem ser acima de 90%.

Origem dos dados

Além de Scheffer, da USP, Guilherme Loureiro Werneck e Lígia Bahia, da UFRJ, também fazem parte do levantamento de cobertura vacinal. Os dados sobre as doses administradas no território brasileiro são oriundos dos Registros de Vacinação Covid-19, obtidos no site do OpenDataSUS, que corresponde às informações divulgadas pelo Ministério da Saúde até aquela data. A base é alimentada por diferentes sistemas de cada unidade da Federação e as informações tratam sobre as primeiras e segundas doses aplicadas das vacinas Covishield (AstraZeneca/Oxford) e CoronaVac (Sinovac). Acesse a íntegra da nota Cobertura Vacinal do dia 23 de abril.

 

Ivanir Ferreira

Jornal da USP

Mais de mil cientistas brasileiras lançam rede que visa a apoiar mulheres durante a pandemia

Um grupo com mais de 1.000 mulheres cientistas se uniu para lançar a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, nesta segunda-feira (19). O grupo tem o objetivo de ajudar a construir políticas públicas capazes de produzir garantias integrais para a vida das mulheres, em meio à pandemia de covid-19.

As cientistas destacam que a pandemia atinge de forma mais dramática as populações vulneráveis, em especial, as  mulheres, e há ausência de políticas públicas voltadas a apoiá-las, neste momento de crise. “O agravamento das condições sociais, econômicas e psíquicas decorrentes da ausência de políticas públicas adequadas para a contenção da covid-19 tem esgarçado o tecido social e lançado milhares de brasileiros e brasileiras à própria sorte”, afirmam, em carta conjunta.

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho caiu para 45,8% em 2020, a menor em 30 anos. Além disso, as mulheres sofrem com a sobrecarga de tarefas domésticas. Dados do Datafolha apontam que 57% das mulheres que passaram a trabalhar remotamente disseram ter acumulado a maior parte dos cuidados domésticos.

As cientistas afirmam que é preciso pensar em políticas públicas com recorte de gênero, do contrário, as desigualdades nesse sentido podem se acirrar em razão da pandemia de coronavírus.

A rede visa a atuar nos campos da saúde, violência, educação, assistência social, segurança alimentar, trabalho e emprego, moradia e mobilidade. Dentro de cada uma dessas áreas, as cientistas estão mapeando as frentes em que cada uma pode atuar para identificar a granularidade que a rede terá em todo o Brasil. A intenção é organizar por Estados e municípios.

As propostas para essas políticas já estão prontas. Há muito acúmulo de conhecimento, produção e experiências em torno desses seis temas. O objetivo é levar essas respostas para o centro do debate público, buscando uma abordagem integrada em torno das necessidades cotidianas das mulheres.

“A iniciativa é um chamado às autoridades de todo o Brasil, queremos mostrar que estamos aqui dispostas a ajudar. Temos conhecimento, dados e capacidade para construir esse diálogo”, explica ao Jornal da USP uma das participantes, a professora Lorena Barberia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ela conclui dizendo que a intenção é ajudar a população e salvar vidas, e que o governo que estiver interessado receberá a colaboração do projeto, não importa o posicionamento político.

A Rede Brasileira de Mulheres Cientistas é um projeto aberto e está recebendo assinaturas de cientistas de todo o Brasil. Para participar é preciso entrar no site oficial da Rede.

 

Beatriz Azevedo

Jornal da USP

Idade não é principal determinante da gravidade da covid-19 em idosos

Idade cronológica não o melhor indicador para prever a evolução e gravidade da covid-19 em idosos, aponta estudo desenvolvido por pesquisadores da USP. De março a julho de 2020, foram acompanhados cerca de 1.830 pacientes internados no Hospital das Clínicas da USP. A pesquisa observou a recorrência da síndrome da fragilidade em pessoas acima dos 50 anos e concluiu que este é um fator a ser considerado para avaliar os riscos de agravamento da covid-19, já que a síndrome, entre outros fatores, vulnerabiliza o paciente.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, Marlon Aliberti, pesquisador clínico do Laboratório de Investigação Médica em Envelhecimento (LIM66) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que a idade avançada é fator de risco para covid-19, mas não o único, e não pode ser considerada determinante para o agravamento do quadro clínico. “A idade cronológica interfere pouco no nível de saúde. Há vários outros critérios importantes. Para entender, tivemos o ímpeto de estudar a síndrome de fragilidade, que é mais comum em pessoas que envelhecem. A partir dessa síndrome, conseguimos entender melhor que o nível de saúde da pessoa vai além da idade e pode determinar se essa pessoa tem chance de evoluir de maneira mais grave, com piores consequências, ou uma chance de ter uma boa evolução, apesar de ser internada.”

A síndrome da fragilidade estabelece características notáveis nos idosos, como a perda de energia para fazer as atividades do dia dia, perda de peso, fraqueza muscular, lentidão da velocidade de marcha e baixa capacidade física. A partir da comprovação desses critérios, clinicamente, é possível diagnosticar a síndrome. Devido à complexidade de avaliar os pacientes internados com covid-19, a equipe de pesquisa utilizou uma escala clínica para o diagnóstico e nela foi observada a capacidade individual de realização de atividades de autocuidado, de morar independentemente e como a energia no idoso era antes da contaminação pelo coronavírus: “Isso tudo foi considerado não durante a covid-19, mas como o idoso era um mês antes da doença. Por isso, chamamos no estudo de fragilidade prévia. A ideia desse trabalho é que essa fragilidade prévia era antes de a pessoa ser infectada. Mas as características da doença aguda é que determinam como a pessoa vai evoluir quando tem uma forma mais grave da covid-19”, compartilha o médico.

Conforme Aliberti, a avaliação da síndrome da fragilidade em idosos é realizada em alguns países europeus, como no Reino Unido. “Lá, todo paciente que adentra o pronto-socorro tem avaliada a fragilidade, além da idade, sexo, pressão arterial, frequência cardíaca.” Contudo a observação prolongada desses pacientes por seis meses era inédita até o estudo do HC: “Pela primeira vez, mostramos a fragilidade como marcador prognóstico num período de seis meses. O que aprendemos? A mortalidade relacionada à covid-19 nas formas graves é muito mais intensa nesses primeiros dois meses, que é o momento que a pessoa está internada e recebe alta há pouco tempo. A mortalidade é muito maior no período da internação. Conseguimos captar algo em torno de 5% de indivíduos que acabam vindo a falecer depois da alta hospitalar num período maior após a alta”. O estudo não deve parar por aí. O objetivo agora é avaliar a síndrome da fragilidade por um ano para compreendê-la e entender a relação com a covid-19 após a alta.

 

Jornal da USP

Coronavírus: avanço da P.1 no território repete 2020, com muito mais casos e mortes

A pandemia no Brasil desenhou uma rota com rápida disseminação de casos e óbitos por covid-19 no País como um todo, mas uma variação de padrões entre Estados e municípios que refletiu a diversidade das políticas de contenção – ou ausência delas. Saindo do Sudeste, com o início em São Paulo, para os graves surtos verificados no Norte e no Nordeste, e depois de volta ao Sudeste, chegando à região Sul.

Um estudo publicado nesta quarta-feira (14) na revista Science mostra como se deu tal dispersão na primeira fase da pandemia, alertando para uma possível repetição deste movimento no território nacional no momento atual, mas desta vez com a variante P.1 adicionada ao cenário. Assim, a rota do vírus pode ser comparável, mas deixará no mapa traços ainda mais trágicos, com um número de mortes que pode ser, nas palavras dos autores, “intolerável”.

“O fracasso em evitar essa nova rodada de propagação facilitará o surgimento de novos VOCs [variantes de preocupação, na sigla em inglês], isolará o Brasil como uma ameaça à segurança da saúde global e levará a uma crise humanitária completamente evitável”, alerta o texto.

A pesquisa liderada pela brasileira Marcia Castro e por Sun Kim, ambas da Escola de Saúde Pública de Harvard, teve a participação de Lorena Barberia, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e acompanha a pandemia no País desde seu início, em fevereiro, até outubro de 2020, detalhando como regiões e municípios impuseram ou relaxaram medidas em diferentes momentos, com base em critérios distintos, facilitando em maior ou menor medida a propagação do vírus.

Destaque negativo no estudo, o Estado do Rio de Janeiro exibiu alguns indicadores piores que o Amazonas, por exemplo, apesar do RJ contar com melhor infraestrutura, dispondo de mais que o dobro de leitos por habitantes que o AM. Para as autoras, o caos político comprometeu uma resposta mais rápida e eficaz, lembrando que neste período as lideranças ficaram imersas em denúncias de corrupção, com o governador destituído do cargo e o secretário da Saúde trocado por três vezes entre maio e setembro de 2020, um deles sendo preso.

 

Dispersão geográfica dos casos de covid-19 no território brasileiro

Dispersão geográfica das mortes por covid-19 no território brasileiro

Já o Ceará, que quase chegou ao colapso do sistema hospitalar entre o final de abril e meados de maio, e teve a circulação silenciosa do vírus mais de um mês antes do primeiro caso relatado oficialmente, teve rápida interiorização dos casos, mas em menor velocidade que dos óbitos. Para Lorena Barberia, o Estado é um destaque positivo pois, comparado a outros, reagiu de forma mais rígida em maio. Foi construído um pacote de medidas mais coerentes e articuladas e elas foram mantidas por três semanas. “Ele começa como um caso muito preocupante, mas por ter reagido desta forma em maio, conseguiu reverter a evolução da pandemia em seu território. Nenhum outro estado adotou medidas tão rígidas nesse período”, diz a pesquisadora.

Quanto à resposta federal, o artigo a relata como “uma combinação perigosa de inação e irregularidades, incluindo a promoção da cloroquina como tratamento, apesar da falta de evidências”. Destaca ainda a falta de estratégia nacional coordenada se refletindo em taxas de ataque [incidência em uma população definida em um curto período de tempo] muito altas e com peso desproporcionalmente maior entre os mais vulneráveis.

Os autores ressaltam, porém, que não há uma “narrativa única” para explicar a propagação do vírus nos Estados brasileiros. “Em vez disso, camadas de cenários complexos se entrelaçam, resultando em epidemias covid-19 variadas e simultâneas em todo o País.”

A covid no tempo e no espaço

Para medir quantitativamente a intensidade da propagação de casos e óbitos de covid-19  ao longo do tempo, foram acessados dados das Secretarias Estaduais de Saúde e utilizado um indicador chamado Índice de Hoover. Valores próximos a 100 indicam concentração da pandemia em poucos municípios, enquanto valores próximos a zero sugerem distribuição mais homogênea. Se as medidas de contenção fossem eficazes, o esperado era que o índice diminuísse lentamente, permanecendo relativamente alto ao longo do tempo – algo que se verificou na Coreia do Sul, por exemplo.

No Brasil porém, logo na primeira semana com eventos notificados, Amazonas, Roraima e Amapá tiveram índice abaixo de 50 para casos e óbitos, sugerindo que já havia circulação não detectada do vírus antes da notificação (e, portanto, quando as notificações começaram, já havia uma grande parte da população infectada). “Isso foi confirmado no Ceará, onde uma investigação retrospectiva revelou que o vírus já circulava em janeiro”, relembra Marcia Castro.

Em todos os Estados, o tempo entre o primeiro caso e a primeira morte foi menor que um mês; apenas 11 dias no Amazonas e 21 dias em São Paulo. “Isso reflete problemas de vigilância, notificação e baixa testagem. O primeiro aglomerado significativo de mortes teve início em 18 de maio, perto de Recife. Cinco outros ocorreram antes que o primeiro grupo de casos fosse observado. A situação é diferente da que foi observada na Coreia do Sul, onde a contenção bem-sucedida reduziu a duração e a extensão geográfica destes aglomerados ao longo do tempo”, diz Marcia Castro.

Além disso, se as medidas fossem eficazes para evitar o colapso do sistema hospitalar, esperaríamos que o índice usado se apresentasse mais alto para os óbitos, em comparação com os casos; ou seja, que os óbitos ficassem mais concentrados, por mais tempo, em poucos municípios. “Se houvesse uma resposta efetiva e capaz de conter a transmissão, o indicador ia começar alto, poderia cair um pouco, mas iria atingir um platô ainda num nível alto”, diz Marcia Castro.

Tomando o País como um todo, em geral, houve introdução rápida e em múltiplos focos do vírus, imediatamente seguida por uma rápida propagação espacial. Mas o padrão variou entre os Estados.

O Estado do Rio de Janeiro teve a interiorização mais intensa tanto de casos quanto de óbitos, seguido pelo Amazonas. Os dois sofreram com falta de leitos de UTI, mas a situação era pior no Amazonas, com cerca de 11 leitos de UTI disponíveis para cada 100 mil pessoas, todos concentrados em Manaus, contra mais que o dobro no RJ: 23 leitos por mil pessoas.

Gestão

A professora Lorena Barberia chama a atenção para um aspecto do trabalho ligado à temporalidade e como isso nos faz entender o cenário atual da pandemia no Brasil. Ao observar o número de casos e óbitos ao longo das 41 semanas e comparar com as políticas de distanciamento físico adotadas (medidas restritivas sobre a circulação das pessoas), os dados mostraram que essas medidas se mantiveram moderadas ou foram flexibilizadas, apesar do agravamento da pandemia, quando era necessário uma intensificação de medidas mais duras para evitar o avanço do vírus na população.

Entre as medidas mais duras, Lorena cita fechamento de comércio e isolamento domiciliar, mas os gestores nunca fizeram recomendações fortes. Foi frequente, por exemplo, adicionar muitas áreas de comércio em serviços essenciais, o que resultou em estes setores não serem fechados. De modo geral, não houve lockdown no Brasil em 2020. Em algumas experiências locais, em São Luís do Maranhão e Fortaleza, houve medidas mais rígidas adotadas. No caso de Fortaleza, o lockdown foi decretado de 8 a 30 de maio para aumentar a restrição da circulação de pessoas e isolamento domiciliar. Em São Luís, as medidas mais rígidas foram por mandado judicial e por um período de apenas duas semanas.

A recomendação sobre o uso de máscaras foi introduzida a partir de abril, e elas começaram a se tornar obrigatórias nos meses seguintes em vários Estados, mas os decretos raramente incluíam uma fiscalização rígida.

Como não houve uma política nacional coordenada, cada Estado definiu serviços essenciais de uma forma. Para alguns, incluía cabeleireiro e barbearia, para outros não. Lorena lembra que o País distorceu essa medida, pois a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que quando você fecha comércio e serviços, os setores essenciais são apenas comida e saúde. “E nós conseguimos interpretar casas de construção e igrejas como serviços essenciais”, comenta. “Já confundimos a sociedade sobre essas medidas. E as medidas implantadas foram moderadas e incoerentes com a gravidade da pandemia.”

Em junho, o Brasil era o segundo país com o maior número de mortes. E por que aconteceu isso? Entender isso, segundo Lorena, é essencial para compreender o momento atual da pandemia. É preciso olhar para a experiência de 2020. Se os gestores públicos não reagem quando há um aumento exponencial de casos e óbitos, se acham que apenas medidas moderadas irão conter a pandemia, os dados de 2020 mostram exatamente o oposto. A maioria dos Estados não reagiu ou flexibilizou as medidas restritivas e, por causa disso, o que vemos é um número elevado de óbitos e casos que persiste ao longo das semanas, em vez de diminuírem.

Recomendações

Para Lorena Barberia, é preciso usar a experiência de 2020 para pensar 2021. Tanto no que diz respeito ao distanciamento social quanto na consciência de que medidas moderadas não ajudam a evitar casos e óbitos, e que, portanto, medidas mais rígidas são necessárias.

Outro problema é a falta de testagem, pois os surtos poderiam ser detectados mais cedo, identificando as regiões de ocorrência e proporcionando respostas mais focalizadas. “O Brasil tem capacidade e infraestrutura para isso, mas precisa investir e aumentar a intensidade e volume do esforço”, diz ela.

Também é necessário investir em vigilância epidemiológica. Quando uma pessoa testa positivo para covid, é preciso que ela faça isolamento restrito, além de avisar todos os contatos que estão com suspeita de infecção. “Sem vigilância junto com a testagem, nós não vamos conseguir controlar a pandemia, mesmo num cenário de vacinação”, alerta a professora.

Por fim, ela destaca a necessidade de coordenação das ações. Se não tivermos medidas coordenadas e coerentes, com respostas rápidas diante da piora da pandemia, isso vai nos colocar numa situação muito mais preocupante, com um número casos e mortes catastróficos, além do colapso dos sistemas de saúde. “Atualmente, com um número altíssimo de casos e mortes, estamos com medidas semelhantes às de março de 2020”, lamenta.

 

Luiza Caires e Valéria Dias

Jornal da USP

Tecnologia brasileira reduz em 80% o uso de ‘pulmão artificial’ em pacientes com insuficiência respiratória aguda

Um tomógrafo por impedância elétrica desenvolvido pela empresa paulista Timpel ajudou médicos do Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos, a reduzir em 80% a necessidade de pacientes com insuficiência respiratória aguda internados na instituição e com indicação de terapia de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) serem submetidos ao tratamento, popularmente conhecido como “pulmão artificial” e adotado hoje em casos muito graves de COVID-19.

Os resultados do estudo foram descritos em artigo publicado na revista Respiratory Care.

“A equipe de resgate pulmonar desse hospital tem utilizado o equipamento que desenvolvemos desde 2016 e vem obtendo resultados espetaculares”, disse Rafael Holzhacker, em palestra apresentada durante o webinário “Empreendedorismo científico e inovação em resposta à COVID-19”, realizado pela FAPESP, com apoio do Global Research Council (GRC), no dia 07 de abril.

O tomógrafo por impedância elétrica, desenvolvido pela empresa com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), permite que equipes médicas monitorem ininterruptamente e de forma não invasiva, à beira do leito, a condição do pulmão de pacientes com insuficiência respiratória. Desse modo, é possível otimizar a ventilação mecânica com o objetivo de reduzir complicações e lesões pulmonares e evitar o prolongamento desnecessário do procedimento.

“A ventilação mecânica é complexa, não intuitiva e apresenta vários perigos que não são visíveis à beira do leito. Além disso, as respostas dos pacientes são muito heterogêneas”, apontou Holzhacker.

A evolução dos pacientes durante a intubação é lenta e a estratégia de ventilação mecânica adotada em um caso pode não funcionar em outro.

“Por isso, é muito importante a equipe médica ter indicadores individualizados para visualizar a condição do pulmão de um paciente para realizar a ventilação mecânica adequadamente, com a finalidade de diminuir o tempo de dependência e, consequentemente, os efeitos colaterais da intubação”, afirmou Holzhacker.

O tomógrafo faz a avaliação da resistência à passagem de uma corrente elétrica (a impedância), que varia substancialmente devido ao ar nos pulmões, na medida em que o paciente inspira e expira.

Por meio de uma cinta com 32 eletrodos, o equipamento emite uma corrente elétrica de baixa intensidade ao redor do tórax do paciente – similar à corrente elétrica utilizada em exames de eletrocardiograma.

À medida que atravessa o tórax e encontra diferentes resistências no percurso, a corrente elétrica indica a região dos pulmões por onde o ar está circulando. Com base na impedância medida na superfície do tórax são geradas 50 imagens por segundo, que representam a distribuição e a dinâmica de insuflação do pulmão, fornecendo uma informação vital ao médico, em tempo real, à beira do leito.

Um software integrado ao equipamento, desenvolvido durante o projeto apoiado pelo PIPE-FAPESP, permite à equipe médica avaliar a melhor estratégia de ventilação protetora para o paciente.

Com o auxílio do equipamento, a equipe médica do Massachusetts General Hospital desenvolveu estratégias de ventilação mecânica individualizada para 15 pacientes com insuficiência respiratória aguda internados na instituição e com indicação de ECMO.

Por meio de manobras de ventilação mecânica visualizadas por meio do tomógrafo, eles conseguiram que apenas dois dos 15 pacientes com indicação de ECMO fossem submetidos ao procedimento, em que o sangue do paciente circula fora do corpo, por meio de cânulas, passa pela bomba e membrana de um equipamento que funciona como um pulmão artificial e retorna oxigenado para o corpo.

“O ECMO é um dos últimos recursos utilizados em uma UTI por ser caro e muito complexo, e com a pandemia de COVID-19 a necessidade dessa terapia foi multiplicada”, disse Holzhacker.

A mesma equipe médica do hospital americano relatou em outro estudo, publicado no início de 2020 na revista Critical Care, ter conseguido também com base na ventilação mecânica individualizada visualizada pelo tomógrafo desenvolvido pela Timpel reduzir pela metade o risco de morte de pacientes obesos e com insuficiência respiratória aguda que necessitaram ser intubados.

“A conexão com a equipe médica desse hospital, que é o maior da Universidade Harvard, e de outras instituições hospitalares, não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil, Itália e Espanha, foi fundamental para respondermos às demandas apresentadas pela pandemia de COVID-19”, afirmou Holzhacker.

Também contribuiu o fato de terem desenvolvido antes da pandemia de COVID-19 uma ampla gama de aplicações para tomógrafo, como para pacientes obesos – que fazem parte dos grupos de risco de desenvolver formas graves da doença –, para ajudar a avaliar o efeito da colocação do paciente na posição prona (de bruços), para uso pediátrico e em neonatos, entre outros usos, avaliou o executivo.

Plataforma versátil

A versatilidade de uma tecnologia utilizada por pesquisadores da startup Biolinker para produzir proteínas recombinantes de difícil expressão também foi o que permitiu à biotech desenvolver kits e testes de diagnóstico para detecção de COVID-19.

Por ser baseada em uma metodologia, chamada de sistema livre de células, existente há mais de 100 anos e empregada para decodificar o genoma humano, a tecnologia ainda é muito cara.

Por meio de aprimoramentos da metodologia em etapas, os pesquisadores da empresa, incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), têm conseguido produzir e purificar proteínas recombinantes de forma continuada.

“Somos a segunda empresa no mundo capaz de liofilizar esse sistema livre de células. Isso é importante porque permite aumentar a estabilidade e o rendimento de proteínas e facilitar o transporte”, disse Mona das Neves Oliveira, fundadora da empresa.

Com a emergência da COVID-19, os pesquisadores da Biolinker viram que a plataforma tecnológica que desenvolveram poderia ser usada na produção de proteínas liofilizadas do SARS-CoV-2, que são importantes para o desenvolvimento de vacinas, novos medicamentos e testes de diagnóstico da doença. Entre essas proteínas estão a nucleocapsídeo N – a fração antigênica da proteína da superfície do SARS-CoV-2, chamada spike, usada pelo novo coronavírus para se conectar a um receptor nas células humanas (proteína ACE2) e infectá-las – e a RBD (sigla em inglês de domínio de ligação do receptor), que é a ponta da spike.

A nucleocapisídeo N está sendo usada em um teste ELISA – sigla em inglês de Enzyme-Linked Immunosorbent Assay –, que a empresa está desenvolvendo em parceria com a professora Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IMT-USP), por meio de projeto apoiado pelo PIPE-FAPESP.

O teste visa detectar a presença de anticorpos do tipo imunoglobulina G (IgG), produzidos ainda na fase aguda da doença (em média dez dias após o início dos sintomas) no soro de pacientes (leia mais em pesquisaparainovacao.fapesp.br/1406).

O teste foi validado pelo IMT-USP por meio de amostras de sangue de 250 pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

“Conseguimos obter resultados muito interessantes. Os dados indicaram que o teste que desenvolvemos têm 95% de sensibilidade para detectar anticorpos IgG, um índice maior do que de outros disponíveis comercialmente”, comparou Oliveira.

Já a proteína RBD está sendo usada em um teste popular de COVID-19 que a empresa desenvolveu em parceria com o pesquisador Frank Crespilho, professor do Instituto de Química de São Carlos da USP (leia mais em agencia.fapesp.br/35036/).

“Essa proteína, que é importante para avaliar a eficácia de vacinas contra a COVID-19, porque detecta anticorpos neutralizantes, é extremamente difícil de ser expressa. Desenvolvemos estratégias para manter a estabilidade e melhorar a resposta e sensibilidade dela”, disse Neves.

Os dois testes estão em fase final de ensaios para obterem o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Mais recentemente, a empresa estabeleceu uma parceria com os pesquisadores Ligia Morganti e Carlos Roberto Jorge Soares, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), para produzir a proteína spike do SARS-CoV-2 inteira.

“Essa proteína é extremamente grande, difícil de ser expressa, e a estamos produzindo em células humanas”, disse Neves.

Cultura de inovação

Além da Biolinker e da Timpel, outras empresas apoiadas pelo PIPE-FAPESP têm se destacado no desenvolvimento de soluções voltadas ao combate da COVID-19. Entre elas estão a Biologix e a Hoobox, ambas integrantes da Eretz, a incubadora de startups do Hospital Israelita Albert Einstein.

A Biologix desenvolveu um sistema baseado em internet das coisas para diagnosticar e monitorar apneia do sono em ambiente domiciliar, que se mostrou útil para acompanhar remotamente pacientes com suspeita ou sintomas brandos de COVID-19 e encaminhá-los a um hospital somente ao detectar a piora nos sinais clínicos (leia mais em pesquisaparainovacao.fapesp.br/1374).

Já a Hoobox desenvolveu em parceria com uma spin off do Einstein, a startup Radsquare, um sistema que, por meio de inteligência artificial e visão computacional de reconhecimento de face, identifica pacientes com febre à distância. O equipamento tem sido utilizado pela instituição hospitalar no monitoramento de visitantes (leia mais em agencia.fapesp.br/32933/).

“Esse sistema, batizado de Fevver, foi desenvolvido em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein”, disse Rodrigo Bornhausen Demarch, diretor de inovação da instituição e co-fundador e CEO da healthtech Zetta Health Analytics.

De acordo com o executivo, a área de inovação do hospital paulista é mais conhecida pela Eretz, mas a inovação na instituição vai muito além e é iniciada em uma área chamada Design Lab.

“É por meio dessa área que as iniciativas de inovação começam a ser fomentadas dentro da organização”, explicou Demarch.

Já a gestão do processo de inovação, da propriedade intelectual, que inclui a transferência e licenciamento de inovações tecnológicas, e o desenvolvimento de parcerias com empresas e universidades é feito no Einstein por meio de uma área chamada Business Technology Center (BTC).

A Eretz é o terceiro grande pilar de inovação do Einstein, afirmou o executivo. Concebida originalmente como uma incubadora de startups, ela se transformou em um ecossistema de inovação e empreendedorismo em saúde, reunindo hoje 76 empresas, sendo 70% atuantes em saúde digital, 15% em biotecnologia e o restante voltado ao desenvolvimento de dispositivos médicos.

As empresas incubadas recebem apoio em marketing, desenvolvimento de negócios, capacitação, proteção da propriedade intelectual, captação de recursos de investidores-anjo e de agências de fomento à pesquisa e inovação tecnológica.

“As startups incubadas no Eretz captaram mais de R$ 9 milhões em recursos para o desenvolvimento de soluções voltadas ao combate do novo coronavírus”, disse Demarch.

Na opinião dele, o empreendedorismo de base tecnológica em saúde no Brasil já atingiu um bom nível de maturidade. Se apoiar em ciência é fundamental para desenvolver inovações nessa área, indicou.

“Uma boa healthtech precisa estar sempre apoiada em ciência, antes de qualquer coisa, na grande maioria dos casos, e isso requer um processo exploratório para identificar um problema clínico não resolvido”, avaliou.

 

Elton Alisson

Agência FAPESP (www.agencia.fapesp.br

CC BY-ND 4.0

Profile view of concentrated Asian microbiologist examining sample with help of modern microscope while wrapped up in work at dim laboratory
Profile view of concentrated Asian microbiologist examining sample with help of modern microscope while wrapped up in work at dim laboratory

Soro desenvolvido pelo Butantan pode amenizar gravidade de pacientes com covid-19

O Instituto Butantan enviou para a Anvisa pedido para testar um soro anticovid em humanos. O objetivo é amenizar os sintomas da doença em pessoas já infectadas. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, Ana Marisa Chudzinski Tavassi, diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Instituto Butantan, comenta que a colaboração com a USP permitiu que estudos sobre os efeitos do vírus inativado no corpo fossem conduzidos.

Com base nesses estudos, o instituto passou a trabalhar com a possibilidade de desenvolver o soro, já que não existem antivirais específicos contra o coronavírus. O objetivo é “oferecer a alguém que já está infectado um anticorpo pronto”, afirma Ana. “A ideia é tratar pacientes hospitalizados”, completa. Segundo a diretora, os soros têm atividade rápida, o que auxiliará na diminuição da gravidade da doença.

Após os testes iniciais em células, a Anvisa sugeriu um ensaio pré-clínico em animais, que também foi conduzido pelo Butantan em colaboração com a USP. “O resultado mais importante foi que, um dia depois do tratamento com esse soro, já havia uma diminuição muito importante da carga viral nos pulmões dos animais e a preservação das estruturas do pulmão”, comenta Ana.

“O soro é um recurso fantástico porque você produz anticorpos contra as várias proteínas do vírus”, diz. As análises ainda estão em andamento, mas, por conta dessa abrangência, a perspectiva é que o soro, produzido em cavalos, possa ser eficaz inclusive contra as novas variantes do coronavírus.

A pesquisadora afirma que tanto o Butantan quanto a Anvisa estão comprometidos em conduzir os estudos da maneira mais rápida possível. Assim que a agência der o aval, os ensaios clínicos começarão imediatamente.

 

Jornal da USP

Cuidados com a saúde dos olhos

Muito se fala dos cuidados para evitar o contágio pelo coronavírus, a saúde mental também é um assunto que está super em alta durante essa pandemia, porém como anda sua saúde ocular? Os olhos  também estão sentindo os impactos do “novo normal”.

Com o avanço da pandemia, a indicação foi que consultas e procedimentos eletivos (não urgentes) fossem adiados, em razão disso alguns cuidados com a visão foram para segundo plano.

Além dos exames de rotina não estarem sendo feitos na frequência indicada, quem trabalha ou estuda em casa está convivendo com uma exposição muito elevada às telas, tendo ainda o tempo de descanso dos olhos reduzido, pois não há um trajeto até a escola ou trabalho. Tudo é feito dentro de casa.

Para evitar a síndrome da fadiga visual, faça uma pausa a cada 20 minutos e olhe por 20 segundos para algo que esteja a cerca de 6 metros de distância de você.

“Até o nosso lazer foi reduzido a uma tela”, ressalta o diretor do Grupo Saúde e Prevenção, Fábio Souza. “Para evitar a disseminação da covid-19, o ideal é que todos permaneçam em casa, então o cinema virou a TV e o celular, que antes era um meio de comunicação apenas, hoje é ferramenta de trabalho e até de lazer”.

Infecções sexualmente transmissíveis entre jovens preocupam especialista

“Eu me senti perdido, sem rumo, sem direção, com vontade de sumir, o que seria da minha vida daquele momento em diante?” Essa foi a reação de SR, um homem de 29 anos que não quis se identificar, após descobrir o diagnóstico de HIV. Assim como ele, outras 43,9 mil pessoas receberam essa notícia em 2018, segundo dados do Ministério da Saúde. E, com as relações sexuais iniciando-se cada vez mais cedo, especialistas estão preocupados com o aumento das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) entre os jovens.

E esse cuidado tem fundamento, já que dados do Boletim Epidemiológico HIV/Aids revelaram aumento de 64,9% das ISTs entre jovens de 15 a 19 anos  e de 74,8% para os de 20 a 24 anos, entre 2009 e 2019. Para a infectologista Fabiana Lopes Custódio, médica do Centro de Saúde Escola Dr. Joel Domingos Machado, ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o crescimento se deve a uma falsa sensação de segurança que essa parcela da população sente, principalmente por não ter vivenciado as epidemias de HIV e Aids na década de 1980.

De acordo com a médica, apesar de conhecer a realidade, “a maioria não é sensibilizada por ela”. Sentimento que pode perdurar por toda a vida, pois, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), publicados em 2020, embora homens adultos saibam o que são as infecções sexualmente transmissíveis, 80% se consideram fora de risco para a contaminação e somente 11% afirmam que podem estar em perigo.

“Eu ouço muito de alguns pacientes no consultório dizendo ‘se eu pegar HIV tudo bem, porque tem tratamento e hoje é uma doença como outra qualquer’, só que isso não é bem assim”, conta Fabiana. A médica adverte que, apesar de viverem bem, no médio e no longo prazo os pacientes soropositivos podem apresentar sintomas colaterais, além do cansaço em relação ao compromisso contínuo com o tratamento; por isso, alerta que “o melhor caminho é a prevenção”.

Necessidade de modernizar o diálogo com jovens

Apesar do acesso à informação, um outro estudo divulgado pela SBU, feita pela campanha #VemProUro, incentivando adolescentes a procurarem orientação médica, revelou ainda que 41,67% dos jovens não conversam sobre sexo, sendo a família e a escola pouco acessadas para busca de informações. Para a especialista, o cenário revela a necessidade de modernização do diálogo com essa parcela da população, “considerando suas especificidades e seus contextos individuais”.

Ainda de acordo com a pesquisa, 15% dos jovens de 12 a 18 anos já tiveram alguma relação sexual, mas 44% não usaram preservativo na primeira vez e 35% não usam ou raramente usam a camisinha. Entre os meninos, 38% afirmaram não saber sequer colocar a camisinha. Para os que estão iniciando a vida sexual, SR aconselha que conheçam as pessoas com quem vão se relacionar e diz que “as relações sexuais, antes de mais nada, precisam de diálogo”. Além disso, recomenda que façam uso das medidas preventivas, pois, “o HIV não é o fim, mas você pode evitá-lo”.

Sintomas e métodos de prevenção das ISTs 

A infectologista conta que os sintomas podem variar, de acordo com o tipo de IST, além de “sinais e sintomas que podem ser mais ou menos incômodos”. Entre os mais comuns, cita corrimentos, verrugas, úlceras, dor local e algumas lesões de pele. Diz que, ao evitar as doenças, é possível evitar complicações como uma doença inflamatória pélvica, que pode causar dor e esterilidade, além da gravidez ectópica (gravidez fora do útero). “É muito importante falar sobre prevenção, porque essas infecções podem se tornar doenças que poderiam ser evitáveis”, alerta Fabiana.

Entre os métodos para prevenção das ISTs, a médica destaca a combinação do uso de preservativo masculino ou feminino, com estratégias de vacinação. Além disso, recomenda o uso de medicações anti-HIV, por grupos com comportamentos vulneráveis, como profissionais do sexo, por exemplo.

Onde procurar ajuda?

Em casos de possível exposição a alguma infecção sexualmente transmissível, o indivíduo pode fazer a testagem gratuita pelo Centro de Testagem Anônima (CTA), um programa do Sistema Único de Saúde para o aconselhamento ao diagnóstico do HIV, das hepatites B e C e da sífilis. “É um centro que deve acolher, fazer uma escuta qualificada, realizar os testes rápidos e comunicar esse resultado de imediato com o devido aconselhamento”, adianta a infectologista.

De acordo com a médica, os resultados são confidenciais. Além disso, aconselha que os profissionais reforcem a importância da prevenção combinada, em casos negativos, e encaminhem os pacientes para as vacinas gratuitas disponíveis no SUS. Em casos positivos, lembra que o profissional de saúde deve fazer imediatamente “o encaminhamento para o local adequado para tratamento e redução de danos”. É que, “quanto antes se souber de um diagnóstico, e tratar, menor será o impacto na saúde e isso possibilita a quebra na cadeia de transmissão, protegendo futuras parcerias”, afirma.

 

Por Tainá Lourenço

Jornal da USP

Cientistas apontam possíveis causas do maior risco de diabetes e obesidade em trabalhador noturno

A necessidade do funcionamento de serviços por 24 horas exige que muitos trabalhadores desempenhem sua função no período noturno, como é o caso dos profissionais de saúde, como enfermeiros, biomédicos, motoristas e socorristas. Estudo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP mostra que virar a noite trabalhando provoca o desalinhamento do ciclo circadiano, o ritmo biológico dos seres humanos, e impacta negativamente o metabolismo, aumentando o risco de desenvolver obesidade e diabetes, por exemplo.O estudo contou com 20 trabalhadores diurnos e 20 trabalhadores noturnos, submetidos a uma jornada de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso há pelo menos cinco anos em um hospital de Ribeirão Preto. “Verificamos uma alteração dos genes relacionados ao estresse do retículo endoplasmático, uma organela muito importante nas células, induzido pela alteração no padrão de sono dos trabalhadores”, conta Rafael Ferraz Bannitz, cientista biomédico da FMRP e primeiro autor do artigo Circadian Misalignment Induced by Chronic Night Shift Work Promotes Endoplasmic Reticulum Stress Activation Impacting Directly on Human Metabolism.

Segundo Bannitz, estudos apontam que a ativação do estresse do retículo endoplasmático possui um grande impacto em doenças relacionadas com a síndrome metabólica, como a obesidade e a diabete. Ou seja, quando há um excesso de proteínas no retículo endoplasmático das células, ocorre uma sobrecarga da sua capacidade de funcionamento, ocasionando alterações na homeostase (equilíbrio fisiológico) dessa organela e gerando assim o estresse no retículo.

Os resultados do estudo de Bannitz sugerem ainda que o trabalho noturno pode alterar a resposta fisiológica ao estresse oxidativo. “Nós também observamos a diminuição da expressão gênica de NRF2, um importante regulador do estresse oxidativo nas células presentes do sangue dos trabalhadores noturnos.”

Isso significa, diz o pesquisador, que virar a noite no trabalho pode modificar as reações fisiológicas responsáveis pela proteção contra agentes oxidantes, provocando assim efeitos danosos ao corpo humano, como por exemplo o envelhecimento precoce.

Além disso, os resultados apontaram um aumento dos níveis de glicose, triglicerídeos, circunferência da cintura e pressão arterial nos trabalhadores hospitalares noturnos quando comparados aos diurnos.

“Nossos achados agregam informações importantes para a compreensão dos efeitos negativos do trabalho noturno e abrem uma nova perspectiva para políticas estratégicas a fim de reduzir o estresse e minimizar os problemas metabólicos decorrentes do trabalho noturno.”

O estudo foi coordenado pela professora Maria Cristina Foss-Freitas e conta com coautoria dos docentes Ayrton C. Moreira e Margaret Castro e das pesquisadoras Rebeca A. Beraldo e Priscila Oliveira Coelho, todos da FMRP. O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da FMRP (Faepa).

 

Por Giovanna Grepi

Publicado no Jornal da USP