31 de março de 2021 Medicina Preventiva

Vacina contra Covid-19: verdades x mentiras

Nosso diretor, especialista em vírus respiratórios, esclarece dúvidas sobre o assunto

Convocamos nosso diretor, Fábio Souza, que é biomédico especializado em vírus respiratórios pelo Instituto Adolfo Lutz, para tirar algumas dúvidas que recebemos sobre as vacinas contra a Covid-19.

– Vacina impede que você pegue a doença?
Não! Todos podem pegar a doença. Mesmo quem tomou a segunda dose de qualquer uma das vacinas. Porém a imunização impede que a doença evolua para casos graves ou fatais.
Por isso é importante que, mesmo quem tomou as duas doses da vacina, continue a usar máscaras e evitar aglomerações. A vacina impede a progressão da doença, mas não evita que, em caso de novo contato com o vírus, a pessoa transmita a terceiros.

– Vacina é segura?
Sim! Realizadas todas as etapas de estudos laboratoriais e clínicos dentro dos parâmetros dos órgãos regulatórios, no caso do Brasil a Anvisa, é possível afirmar sem dúvida alguma que a vacina é segura.

– Vacina foi feita em tempo recorde?
Esse é um fato que vem sendo muito questionado, porém vale ressaltar que o coronavírus já era conhecido e está sendo estudado há anos pelos principais laboratórios mundiais.
Após o início da pandemia pelo novo coronavírus (SARS-COV2), esses centros de pesquisa mundiais concentraram seus estudos para fazer o levantamento genômico viral no menor tempo possível. Após esse estudo genômico ser concluído, verificou-se que o SARSV-COV2 tem 80% de similaridade genética com o SARS-COV, coronavírus causador de outra grande epidemia em 2002. E foi a partir desta primeira grande epidemia de 2002 que os estudos da vacina contra o coronavírus se iniciaram.
Esses estudos permitiram identificar quais eram as estruturas virais responsáveis por se infiltrarem em nossas células e, por sua vez, estimularem nosso sistema de proteção.
Feita essa identificação, e devido a essa grande similaridade genética, foram necessárias apenas pequenas adaptações nos estudos que já estavam em fase avançada para viabilizar a vacina contra esse novo coronavírus.
Outras tecnologias mais inovadoras e que permitem a produção mais rápida, como a usada na vacina da Pfizer, por exemplo, também foram beneficiadas por esses estudos.
Portanto, o correto é afirmar que, se hoje temos uma luz no fim do túnel, com vacinas já sendo aplicadas, é em razão de estudos que vem sendo realizados há mais de uma década.

– Na sua opinião, qual a maior lição que fica para a comunidade científica e para os governos em geral?
Vejo 3 lições fundamentais.
1 – Nunca subestimar uma epidemia viral, em especial causada por vírus respiratórios.
2 – Patentes das grandes fabricantes. A vacinação está engatinhando em todo o mundo, não por falta de vacinas, mas porque suas produções estão limitadas a poucas indústrias, com poucos recursos para atender em tempo recorde mais de 7 bilhões de habitantes em todo o mundo. É preciso que exista um entendimento global de quebra de patentes para que se permita a fabricação de vacinas em todos os países capazes de produzi-las em larga escala, no caso de nova pandemia.
3 – Medicina preventiva. É necessário que se invista mais em estudos de medidas e metodologias preventivas. Hoje o foco global é na remediação e isso já se mostrou ineficaz e muito, muito caro.
Vivemos em um mundo onde se discutem questões ambientais importantes, inclusive que hoje fazem parte de grades curriculares em escolas e universidades. Penso que estamos passando da hora de adotar a mesma preocupação com as questões de saúde pública focadas na prevenção.

 

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